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Boa leitura!
Noite Sangrenta #30 – Conversa no Porão – 786 d.Q., Tycon
Noite Sangrenta #29 – Um Tiro Certeiro – 786 d.Q., Tycon
Noite Sangrenta #28 – Em Cada Um – 786 d.Q., Tycon
Lyrot observava tudo com atenção da sua mesa. Sentado no canto, com o capuz mantendo o rosto oculto, o guerreiro esperava por algum sinal. A aura de maldade que inundava seus sentidos o deixava apreensivo, o tempo todo à espera de um ataque. Mais algumas horas assim e ele provavelmente sacaria seu machado ao menor sinal de movimento de uma garçonete qualquer. Ele não podia mais esperar, deveria começar agora mesmo, e se a chuva o atrapalharia a investigar lá fora, iniciaria a busca ali mesmo.
Levantando-se lentamente e tentando chamar o mínimo de atenção possível, Lyrot dirigiu-se ao balcão. Por mais que tentasse ser discreto, vários olhares se dirigiam ao ex-guardião, como se tivessem algum interesse nele. Parecia-lhe que todos ali o observavam atentamente. Nem mesmo foi necessário que Lyrot chamasse o taverneiro, já que até mesmo esse parecia atento ao guerreiro.
-O senhor poderia me dar algumas informações? – Perguntou Lyrot em voz baixa.
-Que tipo de informações você procura, andarilho? – Respondeu-lhe o homem, enquanto limpava uma caneca.
Lyrot sabia que muito cuidado era necessário agora. A palavra errada na frase errada poderia fazer o taberneiro ficar calado ou pior.
-Um amigo me disse que eu poderia encontrar filhos do abismo aqui nessa cidade...
O guerreiro interrompeu a frase no meio, algo no rosto do taverneiro tinha lhe causado uma sensação estranha. Uma movimentação súbita e quase que simultânea começou em toda a taverna. Todos ali se mexiam em suas cadeiras como que se preparando para se levantarem.
Agora Lyrot entendia. Toda aquela perversidade que ele sentia cercando-o agora fazia sentido. Ele não precisava mais procurar pelos demônios, pois eles já o haviam encontrado. E Lyrot não estava nem um pouco preparado para isso. Os avisos amedrontados de Nassar agora podiam ser compreendidos. Pois não era da cidade que vinha aquela aura maligna, mas sim de seus habitantes.
Tentando desesperadamente escapar do lugar, Lyrot correu para fora da taverna, sem ao menos olhar para trás. Virou em várias ruas para despistar seus perseguidores, até notar que não estava havia ninguém atrás dele. O guerreiro nem ao menos teve tempo para se perguntar por que o tinham deixado escapar quando percebeu a verdade.
Ele já estava cercado.
Noite Sangrenta #27 – Lepport – 786 d.Q., Tycon

Lyrot podia sentir que havia algo de errado na cidade. As ruas bem organizadas de Lepport dirigiam-se ao centro, onde seus belos edifícios pareciam se concentrar. Pessoas de várias raças andavam com pressa. As construções se erguiam majestosamente por todos os lados. Comerciantes anunciavam seus produtos nas portas das lojas. À maioria, aquela pareceria uma cidade normal.
Mas alguma coisa fazia com que Lyrot tivesse uma má impressão sobre o lugar desde que adentrara seus portões. Cada som que ouvia nas ruas fazia com que o guerreiro se arrepiasse. As sombras que via com o canto dos olhos levavam-no a virar-se constantemente, esquivando-se de ataques inexistentes. Até mesmo a própria cidade emanava uma aura que o atormentava.
E a cada instante que se passava, essas sensações só aumentavam. Talvez, ele pensava, fosse apenas sua imaginação. Ninguém mais ali parecia estar tendo problemas com qualquer coisa do tipo. As pessoas seguiam seus caminhos sem se preocuparem com demônios ou fantasmas.
De certa forma, isso não era bom para Lyrot. Ele precisaria encontrar alguém que soubesse mais do que ele sobre todo aquele assunto. E o que quer que os cultistas estivessem fazendo, não parecia que fosse algo que chamasse muita atenção. O aviso de Nassar parecia completamente sem fundamentos agora que estava dentro de Lepport.
Novamente, pequenas gotas de chuva começaram a cair do céu. As pessoas se apressavam para chegarem aos lugares a que se dirigiam. Lyrot não encontraria nenhuma pista da organização enquanto não tivesse um plano, e a chuva não ajudava em nada. Foi com isso em mente que o guerreiro se dirigiu ao alojamento mais próximo.
O edifício apresentava três andares, que, a partir da base, iam diminuindo de tamanho. Assim que entrou no pequeno saguão de entrada, uma onda de calafrios percorreu o corpo de Lyrot. Aparentemente, não havia nada de suspeito naquele lugar, mas algo no guerreiro lhe dizia que havia algo estranho. E, durante os longos anos de trabalho como guardião, ele havia aprendido a confiar em seus instintos.
Afinal, toda aquela cidade parecia sombria e maligna. Cada pedra das ruas possuía uma aura de perversidade que nem mesmo o mais virtuoso cavaleiro poderia suportar. Para Lyrot, estava claro que os demônios estavam por trás disso. Só restava encontrar provas.
Enquanto esperasse o tempo melhorar, ele poderia pensar no que faria, e isso não seria fácil. Não havia nenhuma informação sobre onde poderia encontrar os cultistas e dificilmente encontraria alguém que soubesse de algo.
O único meio que conseguia pensar para descobrir algo, era perguntar. Só precisava saber para quem.
Noite Sangrenta #26 – O Caminho Para o Inferno – 786 d.Q., Tycon

Durante todo o tempo em que caminharam sob o céu chuvoso, nenhuma palavra foi dita. O modo como Nassar andava apenas deixava o ar mais denso. Passos furtivos de quem há muito se escondia de terrores inimagináveis. O tempo todo o arqueiro olhava atentamente para algum ponto no campo ao lado da estrada pensando ter visto algum movimento. Não havia dúvidas de que algo o perturbava.
Após o que pareceu a Lyrot uma eternidade caminhando na terra ainda molhada da estrada, Nassar finalmente parou. Com o olhar atento, ele diz:
-Acho que aqui está bom. Não teremos problemas com demônios por aqui se terminarmos rápido com isso.
O modo como Nassar foi direto ao ponto em questão surpreendeu Lyrot. Ele nem ao menos tinha dito o que exatamente estava querendo saber.
-Preciso que você me diga tudo o que sabe sobre Xt’Sarath e sobre os rituais para trazê-lo ao nosso mundo – Pediu Lyrot ao velho companheiro.
-Não adianta tentar – Declarou Nassar com um suspiro – O poder da Nevaeh é muito grande para que você possa impedir. Acredite no que eu digo, tudo o que conseguirá é atrair um destino tão terrível para si que eu não desejaria nem mesmo para meus inimigos.
-Eu preciso de sua ajuda, você é o único que pode me dar as informações de que preciso!
-Lyrot, eu mesmo estive envolvido na mesma caçada que você por vários anos, e tudo o que consegui foi dor, sofrimento e condenação – A face do arqueiro parecia adquirir um tom mais sombrio enquanto as lembranças viam à mente – Não há nada que possa ser feito.
-Você não entende! O destino da humanidade pode estar em jogo. E tudo o que você me diz é que não há nada que possa ser feito?
-Engraçado. Achei que você não se importasse tanto assim com a vida dos outros. É meio incoerente para um monstro assassino e sanguinolento, não acha? – O tom de sarcasmo era evidente na voz de Nassar – Ou talvez tenha algo mais por trás disso tudo. Quem sabe sua tão querida Kate?
O rosto de Lyrot ficava cada vez mais vermelho de raiva. Ele não podia acreditar que seu velho amigo tivesse mudado tanto. Pisando duro, volta a seguir a estrada dizendo:
-Ótimo, se não vai me ajudar, eu encontrarei a sede do culto sozinho.
-Se você realmente quer tão desesperadamente abraçar a morte, vá em frente. Basta seguir até Lepport, há 10 quilômetros daqui. Só não espere voltar algum dia.
Sem responder, Lyrot continuou pelo caminho, esperando que as palavras do amigo não fossem verdade.
Noite Sangrenta #25 – Nassar – 786 d.Q., Tycon
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Noite Sangrenta #24 – Viajando – 786 d.Q., Tycon

O dia se arrastava longamente para Lyrot. As nuvens escuras e pesadas pairavam baixas no céu. O sol que já pouco iluminava, agora ia baixando no horizonte coberto de cinza. As sombras da noite aos poucos começavam a cobrir a terra de forma assustadora. Não havia sequer um sinal de que estivesse se aproximando de alguma cidade e, como estava a pé, a viagem seria penosa.
Após ter lido algumas partes do livro que encontrara no Mausoléu, as suspeitas de Lyrot se confirmaram. Grande parte do tomo continha uma série de rituais de invocações de demônios e outros seres das trevas. E dentre eles havia um que permitia abrir um portal para a passagem de Xt’Sarath. Se algo do tipo acontecesse, este mundo estaria fadado a um governo de morte e destruição sem precedentes.
E era por isso que Lyrot continuaria seu caminho, chovesse ou não. Ele deveria descobrir uma forma de eliminar a organização dos cultistas. E, se tudo corresse conforme o esperado, ele conseguiria encontrar sua irmã.
E uma coisa estava diferente para Lyrot agora. Parte dele aceitava o Lobo que existia dentro dele e, se fosse necessário, não hesitaria em usá-lo. A fada o havia convencido de que poderia controlar a Fera se treinasse bastante. E inimigos não faltariam para esse propósito.
As primeiras gotas de chuva começavam a cair na estrada de terra quando Lyrot finalmente avistou alguns pontos de luz ao longe. Provavelmente tratava-se de uma taverna de beira de estrada, o que caía muito bem para o guerreiro. Talvez fosse hora de parar para um descanso, ao menos até que a chuva passasse.
Enquanto corria, Lyrot fazia uma breve revisão de sua longa conversa com a ninfa na casa-na-árvore. Ela parecia realmente interessada em fazê-lo usar sua licantropia cada vez mais, e isso era muito estranho. Mas algo no jeito da criatura o fazia acreditar nela. E caso estivesse errado, provavelmente se arrependeria amargamente disso.
Após uma corrida exaustiva em meio à chuva, Lyrot conseguiu chegar à porta da hospedaria. O lugar parecia aconchegante, exceto pelas sombras das árvores que se agitavam por causa do vento, causando um efeito assustador.
O guerreiro passaria a noite ali. Só depois, ele poderia sair em busca daquele que o ajudaria a encontrar os cultistas. A única pessoa que Lyrot sabia que tinha conhecimento suficiente sobre demônios para dizer como impedir a vinda do Príncipe-Demônio ao mundo humano.
E o nome dessa pessoa era Nassar “Tiro-Certo” Blomberg.
Noite Sangrenta #23 – Visita Inesperada – 786 d.Q., Tycon

Já era meio da tarde quando Lyrot finalmente se entrou casa-na-árvore. Cansado dos últimos dias, o guerreiro ainda teria muito que fazer antes que pudesse deitar-se em uma cama. O terror que passara recentemente na mansão Greer, no pântano e no Mausoléu de Birk o atormentaria por várias noites tumultuadas. Isso quando ele finalmente pudesse descansar.
E esse momento não chegaria por um bom tempo. Agora que possuía o livro dos cultistas, ele tinha muito que pesquisar. Apesar de conhecer razoavelmente bem a linguagem antiga usada no tomo, Lyrot demoraria algum tempo para que pudesse compreender todo o seu conteúdo. E se quisesse encontrar a sua irmã, deveria fazer isso o mais cedo possível.
As últimas palavras de Bismor ainda ecoavam em sua mente quando o guerreiro colocou os pés no assoalho da casa. Algo grande estava para acontecer, e Lyrot tinha a impressão de que, o que quer que fosse, estava profundamente relacionado com Xt’Sarath. Ainda compenetrado em seus pensamentos, o ex-guardião sentou-se na velha cama sem perceber quem estava no cômodo esperando por ele.
-Vejo que está cansado, Lyrot – A voz parecia vinda das profundezas de um lago frio.
Com um susto, Lyrot se vira, puxando seu recém adquirido machado da cintura. Não demorou muito para que reconhecesse a fada que o ajudara a encontrar o Mausoléu.
-É normal depois de lutar com uma horda de zumbis mais um grupo de cultistas satânicos – A resposta seca de Lyrot fez com que uma cara de reprovação surgisse no rosto da ninfa.
-Que bom que você conseguiu eliminar a ameaça que corrompia a floresta. Mas acho que você já entendeu que o grupo do Mausoléu era apenas um ramo do carvalho. E quando descobrir o que está escrito naquele livro saberá o que fazer.
-Como sabe do livro? Andou mexendo nas minhas coisas?
-Na verdade eu já esperava que você o trouxesse. Digamos que foi “intuição”.
Lyrot não gostava nem um pouco de todo aquele ar misterioso da fada. Depois de ter descoberto que até mesmo um dos Guardiões estava a serviço do Príncipe-Demônio, aquela estranha criatura sobrenatural era uma grande suspeita. Aparentemente lendo seus pensamentos, a ninfa começou a falar:
-Não acredita que eu esteja tentando te ajudar? – O som suave da voz da criatura refrescava a alma de Lyrot como um banho de rio – Talvez ajude se eu te disser que com esse livro você poderá chegar até sua querida Kate...
Noite Sangrenta #22 – Nova Caça – 786 d.Q., Tycon
A porta dupla do salão se abriu com um estrondo. Lyrot entrou pisando forte, a cabeça cheia de hipóteses e teorias. A imagem do terrível demônio ainda preenchia sua mente, terrível e ameaçador. O livro estava guardado em sua casa para que fosse analisado depois, mas era como se estivesse aberto na sua frente, mostrando todas aquelas imagens cheias de sangue e dor.
O guardião percorreu toda a extensão do salão até se aproximar do trono do Conde. Sem maiores cerimônias, Lyrot soltou a cabeça de Bismor Morte-Negra aos pés do seu senhor.
-A missão foi terminada – Disse o guardião, sem tirar os olhos do Conde – Bismor liderava um grupo de cultistas que causavam as perturbações de que o senhor falou. Todos foram eliminados e em breve tudo voltará ao normal.
Sem se incomodar com o crânio manchando seu tapete, o Conde de Tycon fala com um tom de orgulho:
-É por isso que você é um dos meus favoritos, Lyrot. Quando te peço para fazer alguma coisa você faz. Seu poder me surpreende cada dia mais.
-Então por que não me ajuda a encontrar minha irmã como prometeu? A cada dia que passa tudo o que eu recebo são mais e mais mortes para carregar em minhas costas enquanto Kate continua perdida.
-Não diga isso, Lyrot. Você sabe tanto quanto eu que eu tenho tentado o máximo possível, mas meus esforços parecem não ser o suficiente...
O guardião sabia o quanto aquilo era mentira. Cada palavra do nobre ameaçava a tênue barreira que segurava a raiva de Lyrot.
-Talvez nós estejamos errados – Foi a frase menos ofensiva que conseguiu dizer. Para ele não faria mais diferença o que o Conde pensava. O desejo de Lyrot era nunca mais ver aquele homem em sua frente. Havia decidido que se quisesse encontrar Kate, teria que fazer isso com suas próprias mãos – Vou me retirar agora.
Sem esperar uma resposta do Conde, Lyrot virou-se e saiu a passos largos do salão. Agora, ele voltaria para casa. E, sem o Conde em seu caminho, ele só tinha que se concentrar em encontrar sua irmã. E a única pista que tinha no momento era o livro.
Ele não tinha aliados em quem confiar, não tinha senhores a quem servir, nem tropas a comandar. Tudo o que estava ao seu alcance era sua força de vontade e seu poder. E seria o suficiente para causar um bom estrago.
A caça começava agora.
Noite Sangrenta #21 – Revelação – 786 d.Q., Tycon
O cheiro de morte ainda pairava no ar dentro do Mausoléu de Birk, tanto dos velhos corpos apodrecendo nos sarcófagos quanto dos novos caídos em poças de sangue. A batalha com o lobisomem parecia ter sido intensa e sanguinolenta. E Lyrot agradecia por isso.
No centro da sala de pedra, havia o que se podia chamar de um altar improvisado. Um manto negro e surrado repousava sobre o caixão principal, provavelmente o do próprio Birk. Sobre ele podiam-se ver instrumentos que pareciam saídos do pesadelo de um torturador psicopata. Vasilhas com substâncias pastosas e avermelhadas completavam a cena juntamente com um velho livro aberto no meio.
Lyrot imediatamente foi em direção ao tomo, que possuía uma capa velha de couro que podia muito bem ter sido retirada de um volume de antes da Queda. Suas palavras, apesar de parecerem estranhas e alienígenas à maioria dos seres humanos, eram familiares ao guardião. Seus anos a serviço do Conde requisitaram mais do que apenas músculos para que chegasse vivo até aqui.
Folheando o tomo, Lyrot via figuras de símbolos ritualísticos e ilustrações de criaturas tão assustadoras que seria perigoso até mesmo descrevê-las. Aos poucos, o guardião foi compreendendo o que desejavam os cultistas. Todos aqueles rituais satânicos, a corrupção da floresta, uma horda de mortos-vivos, levavam-no a crer que talvez realmente não pudesse mudar o que viria.
Uma organização muito maior do que aquele pequeno grupo que enfrentava ali estava envolvida no assunto. As reais proporções do problema começavam a tornar-se claras a cada folha do livro que Lyrot virava. Citações de locais profanos, templos amaldiçoados, guerras criadas pelos cultistas. Cada vez mais, parecia-lhe que estava lutando uma batalha perdida.
Mas a lembrança de Kate o mantinha no caminho. Sua irmã seria resgatada, nem que tivesse que desafiar o céu e o inferno no processo. E provavelmente pelo menos o último teria que enfrentar.
Uma das últimas páginas do livro, tão amarelada e velha como as demais, chamou a atenção especialmente do guerreiro. Não que aparentasse ter sido mais manuseada, ou estivesse suja de sangue. A questão era a figura que aparecia no topo da página.
A figura do Príncipe-Demônio mais lendário de que já ouvira falar: Xt’Sarath, O Vermelho.
Noite Sangrenta #20 – Morte-Negra – 786 d.Q., Tycon
Podia-se ver alguns corpos jogados próximos às paredes. Sangue fresco manchava o chão em vários pontos. Eles não pareciam pertencer a mortos-vivos, já que ainda apresentavam alguns tons de vida. Suas roupas, mantos longos e negros, sugeriam algo mais sombrio, provavelmente aqueles que criaram os zumbis.
Mas Lyrot não se importava com eles. Não ligava se os matara enquanto estava dominado pela Fera, suas mortes eram um preço pequeno a pagar pelo que fizeram. Mas algo deixava o guardião preocupado. E o motivo de tal preocupação estava sob seus joelhos.
Aparentemente a única coisa viva que restara naquele lugar amaldiçoado era o homem que estava preso pelo peso do corpo de Lyrot. A longa barba negra e os olhos esbranquiçados eram velhos conhecidos do guerreiro. Aquele que estava sob seu punho erguido, preparado para um golpe, era um de seus colegas guardiões.
Conhecido como Bismor Morte-Negra, o necromante trabalhava a serviço do Conde de Tycon desde antes de Lyrot ter nascido, sendo provavelmente o mais antigo guardião da região. Os dois nunca tinham sido amigos, mas tampouco inimigos. O que intrigava o guerreiro era que alguém que supostamente deveria dedicar-se a proteger o reino, estava na verdade por trás de um culto satânico. O que significava que ele não podia mais confiar em ninguém.
Vendo que Lyrot hesitava em atacá-lo, Bismor, com sangue escorrendo pelo canto da boca, gaguejou:
-Não se lembra Ly? Sou eu, Bismor!
-É por isso que estou com tanto nojo – o necromante se encolheu com a declaração, como se esperasse um golpe violento – Como você pôde? Violar o corpo de todas aquelas pessoas, torturar a floresta daquele jeito...
Morte-Negra percebeu que não adiantaria se esquivar. O faro do guerreiro era bom e ele parecia saber o bastante para fazer com que fosse impossível inventar uma mentira. Uma risada chiada começou a sair da garganta do necromante.
-Você não pode impedir o futuro! Nada pode mudar o que está por vir! – Bismor parecia não se preocupar mais com a morte que se aproximava – Assim como não pode trazer sua irmã de volta!
Nesse instante Lyrot perdeu a cabeça. Com um único movimento, o guardião quebrou o pescoço do cultista. Aquelas seriam suas últimas palavras.
Noite Sangrenta #19 – Noite Sangrenta – 775 d.Q., Tycon

Os corpos dos assassinos agora estavam espalhados no chão, com enormes ferimentos deixando a carne à mostra. Havia sangue por toda parte. Lyrot estava no meio da sala, de pé, com as mãos e o rosto tingidos de vermelho. A mobília da casa estava completamente destruída, as penas das almofadas repousavam no chão e algumas das janelas de vidro estavam em cacos.
Mas o pior não era o estado em que seu lar se encontrava no momento, nem o ataque que havia sofrido há pouco. O que preocupava Lyrot era o corpo que agora descansava inerte no canto do cômodo. O corpo que pertencera a sua mulher.
Lyrot olhava para o cenário ao seu redor e imagens de terror e morte vinham à sua mente. A imaginação o lançava cenas cheias de sangue nas quais matava Clara em fúria terrível e incontrolável. A maldição novamente voltava para lhe atormentar. E dessa vez, causando um mal terrível, que o acompanharia por toda vida.
Aquela noite, ele tinha se tornado o assassino. E não havia nada que pudesse mudar essa terrível verdade. Lyrot nem ao menos fazia idéia do que levara aqueles homens à sua casa para matá-lo. Mas assim que ameaçaram Clara, sua visão se turvou e ele perdeu o controle. Quando voltou a si, estava parado no meio da sala e coberto de sangue, em parte do de sua amada, descobrindo aos poucos o que acontecera.
Lyrot não podia deixar de se culpar pelo que acabara de ocorrer. Ele sabia de todos os riscos em que colocava Clara quando a trouxe para morar consigo. Sabia da carga que carregava e mesmo assim deixou que se aproximassem. Agora as conseqüências de um relacionamento que nunca deveria ter acontecido finalmente aparecem, e da pior maneira possível.
Não era a primeira vez que matava uma pessoa inocente enquanto estava na forma lupina, mas nunca antes havia sequer ferido alguém tão próximo. Até aquela noite, Lyrot usava o lobisomem como uma arma. Mas a Fera era incontrolável e assassina, e usá-la era como caminhar em uma floresta na neblina, nunca se sabe para onde está indo. Mas dessa vez, aquilo custara a vida de uma pessoa que amava. E isso provavelmente ocorreria várias vezes mais se continuasse a tentar viver uma vida normal.
Agora Lyrot podia ver, certo como o nascer do sol, que deveria se afastar. A vida que planejava não era compatível com sua maldição. Esse tipo de mistura só poderia levar a um resultado: morte daqueles que o rodeavam. Ele aceitaria a proposta do Conde. Lutar como um guardião lhe parecia solitário demais, mas agora era exatamente isso que procurava. Não seria mais conhecido como Lyrot Blackwing, seu nome passaria a ser Lyrot, O Solitário.
Aquela noite foi decisiva para o guerreiro. A transformação em lobisomem já o havia feito sofrer demais. Não deixaria que algo assim acontecesse novamente. Lyrot lutaria o máximo que conseguisse para que a Fera nunca mais tirasse a vida de algum inocente. Para que nunca mais precisasse olhar para trás e ver um rastro de sangue sob seus pés.
Noite Sangrenta #18 – Fugindo do Passado – 786 d.Q., Tycon

O terror rapidamente se espalha pelo rosto de Lyrot, um terror não pelo momento presente, ou pelo futuro que o aguardava, mas sim pelo passado que o marcava e perseguia. Nem mesmo a morte o salvava de seu tormento. Pois sua mulher morta agora estava de pé ao seu lado.
Enquanto o guardião olhava atônito o seu antigo amor de pé como um morto-vivo, seu sangue gelava. Arrepios percorriam sua espinha como se estivesse entrando num lago gelado. E isso não seria apenas uma metáfora por muito tempo.
O tempo voltou ao seu fluxo normal antes que Lyrot voltasse a si. E o cheiro de sangue ao seu redor não demorou a atrair todos os zumbis de volta a ele. Em poucos instantes, Clara era apenas mais um rosto em meio à multidão tentando agarrá-lo.
O mausoléu estava ali, há apenas alguns passos, mas ao mesmo tempo tão inalcançável. Pancadas e mordidas o faziam rebaixar-se, o que nunca é bom quando se está cercado. O sangue caía respingava na água escura do pântano. Lyrot estava perdido na escuridão. Ele queria estar perdido.
Nesse instante um sentimento de raiva intensa despertou em seu interior. O guardião lembrou-se do que o motivara todos esses anos, o que o trazia até ali, naquele lugar macabro. Kate, sua irmã. E nada o faria parar enquanto não conseguisse resgatá-la.
Os monstros que haviam tormentado a floresta, destruído o lugar de suas mais doces lembranças, aqueles que haviam despertado do sono eterno todas aquelas pessoas, e também sua amada Clara, as criaturas que mantinham Kate em suas mãos, os vermes que tanto o faziam o sofrer pagariam com seu próprio sofrimento.
Lyrot sentiu sua perna sendo agarrada. Com um puxão violento, caiu nos degraus de pedra do Mausoléu, abrindo um talho em sua cabeça. Sangue escorria como um rio do guerreiro. Rolando, encontrou as gélidas águas lamacentas do local maldito. No meio de todos aqueles zumbis, caído e ferido, a morte parecia inevitável.
E então Lyrot afundou, corpo e alma, na escuridão do pântano.
E, pela primeira vez em toda a sua vida, o guardião abraçou seu maior inimigo. Lyrot aceitara a Fera.
Noite Sangrenta #17 – A Face da Morte – 786 d.Q., Tycon

Após alguns minutos de luta, Lyrot tinha a impressão de que cada morto-vivo que caía, dois surgiam no lugar. A cada instante que passava, ficava mais difícil movimentar-se e manter-se de pé parecia cada vez mais uma tarefa digna de heróis. Mãos sujas e escurecidas pela morte debatiam-se na direção do guardião, enquanto um número crescente de corpos levantava-se das águas escuras do pântano. Nesse ritmo, apenas socos e chutes não bastariam.
Arfando de cansaço e sangrando devido aos arranhões e mordidas dos zumbis, o guerreiro percebeu que deveria sair dali antes que fosse tarde demais. Até então, a maldição do lobisomem o havia ajudado ampliando sua força e agilidade, mas isso não seria suficiente por muito mais tempo. Agora já não seria possível simplesmente correr em direção ao Mausoléu, que se encontrava a apenas uns cem metros dali. Ao menos não na velocidade normal.
Com um movimento rápido, Lyrot retira um pequeno frasco de um dos bolsos da capa. Aquele pequeno item que ele tinha conseguido com tanto custo em uma de suas missões salvaria sua vida agora. O que pareciam ser pequenos grãos de areia rodopiava dentro do recipiente como se possuíssem vida própria. Uma fraca luminosidade emanava do vidro, pulsando num ritmo lento e melancólico.
Com os mortos-vivos já amontoados ao seu redor, Lyrot esmaga o frasco com as mãos, liberando seu conteúdo no ar. No mesmo instante, um clarão iluminou toda a região, cegando temporariamente o guerreiro. Mas conforme a visão voltava ao normal, percebia-se que o resultado esperado tinha sido alcançado.
Tudo ali parecia ter parado subitamente. As mãos dos zumbis pendiam em direção ao guardião sem movimento. Todo o ambiente vibrava em tons de amarelo e bege, deixando difícil definir os limites dos objetos. O tempo havia parado para Lyrot.
O guardião sabia que não teria muito tempo para sair dali. O efeito do frasco acabaria em poucos segundos. Empurrando os mortos-vivos com força e abrindo caminho o mais rápido que conseguia, aos poucos Lyrot avançava em direção ao Mausoléu de Birk, por onde o número de zumbis ia reduzindo. Aos poucos a movimentação ficava mais fácil e já era possível andar sem ter que empurrar muitos corpos.
Lyrot agora percebia que aos poucos o ambiente voltava às antigas cores mórbidas e sombrias características do pântano. Olhando ao redor, o guardião percebeu que os mortos-vivos retomam seus movimentos lentamente, como um filme em câmera lenta. Não restava muito tempo.
Com uma última investida em direção ao Mausoléu, Lyrot chegou à base dos degraus que levavam à antiga porta da cripta. Mas algo fez com que parasse subitamente. Algo que habitava seus pesadelos mais sombrios e fazia com que perdesse noites inteiras.
-Clara... – sussurrou o guardião espantado.
Noite Sangrenta #16 – Terra dos Mortos – 786 d.Q., Tycon

Lyrot perguntava-se há quanto tempo tudo isso tinha começado. Todos aqueles corpos não poderiam ter aparecido da noite pro dia. Os cultistas provavelmente estavam agindo há meses. Meses de caças e sacrifícios aos demônios que cultuavam.
A raiva que o guardião nutria pelos seus adversários parecia crescer de forma descontrolada. A cada minuto que se passava, a vontade de transformar os corpos dos malditos em uma massa disforme de carne parecia mais forte. E isso não demoraria muito, pois o Mausoléu já estava há apenas alguns metros dali.
Com os punhos cerrados, Lyrot dirigiu-se à cripta com uma intenção de matar que praticamente saía pelos seus poros. A velha construção toda feita de pedra parecia ainda mais sombria no meio do pântano. Rachaduras e hera nas paredes denunciavam a idade do Mausoléu.
Mas para o guardião, não haveria mais nada que o impedisse de vingar todas aquelas mortes. Não se tratava mais apenas de Kate ou da missão. Agora aquilo tinha se tornado algo pessoal.
A única maneira que Lyrot encontrava para perdoar-se dos crimes que cometia era fazer com que todos os outros que os fizessem também fossem punidos. Assim ele mesmo poderia sentir que estava “equilibrando” as coisas. E o que estava acontecendo ali era digno de um monstro. O guardião não poderia deixar tamanho massacre passar impune. Seria como concordar com um ato tão maligno e, assim, tornar-se um monstro ele próprio.
De repente algo agarrou a perna do guardião. Lyrot parou com um susto, não por ter sido aprisionado tão repentinamente, mas sim por causa da natureza do que o agarrara. Pois o que o segurava era uma mão humana.
Olhando ao redor, com os olhos agitados, Lyrot pode ver que todos os corpos que antes estavam ali parados agora se moviam, lentamente levantando-se. A cena pareceu mais horrível do que já era antes. Nem mesmo os mortos eram deixados em paz.
Foi só então que o guerreito percebeu as reais proporções do problema. Havia mais mortos-vivos ao seu redor do que ele seria capaz de lidar, e a cada instante que ficava parado, o círculo se fechava à sua volta. Lyrot chutou o corpo que o segurava e tentou correr para o Mausoléu o mais rápido que conseguiu, mas a quantidade de corpos que se levantavam era assustadora. Desde simples camponeses até soldados de armadura, os mortos erguiam-se implacavelmente.
A mão do guardião foi em direção à sua espada, mas não encontrou nada. Aterrorizado, Lyrot lembrou-se que a havia deixado na mansão. Nenhum daqueles mortos-vivos parecia capaz de segurar nenhum objeto, então seria impossível conseguir uma arma deles.
Teria que abrir seu caminho desarmado.
Noite Sangrenta #15 – Terra Morta – 786 d.Q., Tycon

Lyrot lembrava-se muito bem de quando brincava naquela floresta com sua irmã. Nunca houvera nenhum pântano naquela região. E mesmo como guardião já estivera muitas vezes realizando missões naquelas redondezas. Algo tinha feito com que as coisas mudassem muito por ali.
Talvez fosse por causa disso que a fada se interessava tanto no sucesso da missão. Afinal, sendo ela supostamente uma criatura protetora da floresta, desejaria que tudo voltasse ao normal. A possibilidade parecia passar longe de ser aceitável para Lyrot, mas isso não importava agora.
O guardião estava mais preocupado com as centenas de corpos que jaziam nas águas lamacentas do pântano.
Noite Sangrenta #14 – Especulações – 786 d.Q., Tycon
Noite Sangrenta #13 – Um Novo Caminho – 786 d.Q., Tycon

Agora o guardião estava realmente intrigado. Como aquela criatura que ele nunca havia encontrado antes podia saber tanto sobre seu passado? Até onde Lyrot sabia, a única pessoa que sabia sobre sua irmã, além dele mesmo, era o Conde.
-O que você sabe sobre ela? – Lyrot estava disposto a fazer de tudo para descobrir o paradeiro de sua irmã. Não importava o que a fada pedisse em troca.
-Eu sei o suficiente para dizer por onde deve seguir se quiser encontrá-la – Cada vez mais, a ninfa parecia saber mais do que mostrava. E isso não agradava o guardião – Eu vi a trilha de sangue que o aguarda, Lyrot, e ela te levará a lugares aonde nunca imaginou que chegaria antes.
-Não importa quanta morte e sofrimento haja em meu caminho, eu farei o que for preciso para encontrar Kate!
-Então não deve ter medo de liberar o Lobo que existe em você. Só assim chegará aonde deseja. Independentemente das escolhas que fizer, haverá sangue sobre seus pés. O que muda é de quem é o sangue.
Os olhos de Lyrot se arregalaram quando pensou no que havia feito na última noite. Não. Ele nunca usaria o monstro. Nem mesmo para encontrar sua irmã. Não se tivesse escolha.
-Não! Não me peça isso! Minha maldição não deve ser usada como uma peça de um jogo!
-Você deve entender – A voz da fada soava calma e tranquila – O poder que você traz consigo não é uma maldição, mas um dom. E é somente com ele que seu destino se cumprirá. Cedo ou tarde você irá descobrir por si mesmo.
-O que você me pede é o mesmo que pedir para que eu me jogue no inferno. Não posso concordar com ato tão cruel.
-Há uma grande diferença entre o Lobo e a Fera, guardião, e você ainda terá muito tempo para descobrir isso. Mas o nosso tempo está se esgotando. Você precisa saber o que o aguarda antes de partir.
Lyrot continuava tão relutante quanto antes em aceitar o lobisomem que o habitava como um parasita, mas ele precisava saber o que fazer. Precisava de um caminho a seguir.
-Diga-me então, espírito do lago, como posso encontrar a Kate?
Noite Sangrenta #12 – Ajuda Espiritual – 786 d.Q., Tycon
Noite Sangrenta #11 – Uma Luz na Escuridão – 786 d.Q., Tycon

As árvores passavam rapidamente enquanto Lyrot corria pela floresta. As gotas de chuva caíam sobre o que sobrara de sua roupa rasgada. A folhagem densa da mata cobria os primeiros raios de sol daquele dia, dando à cena um tom sombrio e fúnebre. O ar pesado da floresta tornava a respiração já cansada do guardião arfante.
Lyrot não queria parar. Não enquanto houvesse para onde andar. Queria se afastar de tudo e pensar. Era o que fazia quando causava tragédias como a da última noite. E cada vez que o homem-lobo matava alguém, parte de sua alma morria junto. Mas Lyrot tinha algo pelo que lutava. Algo que o mantinha de pé nos momentos de terror. Lyrot tinha sua irmã.
Após um longo tempo correndo sem rumo entre as árvores, Lyrot caiu de joelhos na terra úmida da floresta. O cansaço da noite o atingia com força agora. Ele havia parado em frente a um pequeno lago, quase totalmente encoberto pelas copas das árvores. A raiva aos poucos se ocultava nas profundezas da mente do guardião. Conforme se acalmava, Lyrot percebeu uma estranha luminosidade vinda da água límpida da lagoa.
Como que magicamente, a chuva parou e o sol penetrou por entre os galhos das árvores, criando reflexos na superfície do lago. Uma figura de forma humana pairava acima da água e parecia aproximar-se cada vez mais. Mas nesse instante Lyrot perdeu a consciência.
Quando voltou a si, o guardião estava deitado no que parecia uma cama de folhas e vestia roupas de linho novas e limpas. Lyrot se sentia estranhamente bem e quente, como se tivesse passado vários dias dormindo ali. Levantando-se cautelosamente, ele se deparou com a figura que tinha visto anteriormente no lago.
Agora era possível descrever a jovem que estava parada à sua frente. Além de um par de asas, a figura graciosa possuía uma pele lisa e azulada que atribuía à sua imagem um tom angelical. Seus olhos da cor do oceano causavam uma sensação reconfortante, ao mesmo tempo em que intrigavam o guardião.
-Finalmente acordou – disse a dama com uma voz que lembrava o canto das sereias – Temos muito trabalho pela frente e pouco tempo para fazê-lo.









