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Boa leitura!

Noite Sangrenta #7 – Na Ratoeira - 786 d.Q., Tycon


Lyrot já não agüentava mais ficar rodando dentro daquele casarão silencioso sem encontrar sequer uma barata ou rato. Quanto mais ficava naquele lugar mais sentia que algo o vigiava. O guerreiro já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha se virado ao pensar ter ouvido algum barulho.

O guardião agora andava com a espada na mão e estava pronto para qualquer ataque surpresa. Mas Lyrot suspeitava que não seria tão fácil. Tendo passado por várias situações piores que essa, o guerreiro sabia que tinha que se manter calmo. Mas a cada instante era mais fácil perder a razão. Aos poucos, sons distantes e indistinguíveis começavam a aparecer.

Embora fosse impossível determinar a natureza do barulho, cada pulso da “voz” fazia gelar o coração de Lyrot. Não demorou muito para que vultos ligeiros começassem a perturbar o homem. O medo já não lhe deixava raciocinar como deveria.

Repentinamente, uma força derrubou o guerreiro no chão, como se fosse um moleque cansado. Para Lyrot, aquela foi a última gota. Correndo como um louco, o guardião não pensava mais em se esconder. Não pensava em mais nada. Apenas sua sobrevivência estava em jogo agora.

O invasor só voltou à razão quando parou em frente a uma janela. A luz pálida da lua agora chegava mansamente à mansão por uma fresta nas nuvens. Vendo a saída, Lyrot voltou ao seu estado normal.

-Ora, ora. Acho que pegamos um rato hoje, Mestre.

A voz arranhada vinha das costas do guardião e fez com que todos os seus pelos se arrepiassem. Virando-se rapidamente, Lyrot se agacha pronto para esquivar-se de um ataque, mas percebe que as duas pessoas que o observavam estavam do outro lado do salão. O menor deles era curvo e feio, com os braços longos e vestia um traje simples e sujo. Ele se escondia atrás do outro, como um cachorro assustado, sendo este uma figura elegante e esbelta, que emanava por si só uma aura de atração. Os dois, como Lyrot já sabia, eram Lorde Greer e um de seus serviçais.

-E um dos grandes, Gilbert. Sorte que ele já foi envenenado. – disse o senhor da mansão.

Não demorou muito para que Lyrot percebesse que o último comentário não tinha um significado muito bom para ele. De mesmo modo, isso lhe explicou o porquê de todas aquelas sensações amedrontadoras. Provavelmente o tal “veneno” estava lhe causando alucinações. Mas seria só isso? Ele não esperaria pra ver.

Antes que a situação piorasse, Lyrot virou-se rapidamente para a janela com intenção de pular. Assim teria feito se uma tonteira repentina não o tivesse feito cambalear. Com a visão e o equilíbrio prejudicados, o guardião não viu opção a não ser ficar e lutar.

A Queda dos Deuses Antigos #2 – Na Cabana – Ano da Queda, Yyrm


As luzes continuaram por um bom tempo. Loregan nunca tinha visto algo do tipo em toda a sua vida, nem mesmo nas histórias de seu pai. Pensando nisso, o jovem aventureiro começa a se preocupar com o velho cavaleiro. Mesmo tendo sido treinado para combate na sua juventude, Sir Loregan já estava idoso demais para agüentar uma batalha prolongada.

Enquanto estava perdido em seus pensamentos, a elfa entra na cabana carregando alguns coelhos no braço. Fazia apenas alguns minutos que os dois tinham decidido procurar algum lugar para passarem a noite. Não tinha levado muito tempo para que encontrassem o velho casebre na beira da estrada. Apesar de o lugar parecer ter sido abandonado há pouco tempo, estava relativamente limpo e arrumado.

-Uau! Você é realmente boa nisso! – disse Loregan, encantado com a velocidade em que a garota conseguira a caça.

-Eu sou uma caçadora. E o nome é Venathia. – respondeu a elfa corando um pouco com o elogio.

-E o meu é Loregan.

Após um instante de silêncio, os dois começaram a preparar a refeição, sem dizer nenhuma palavra um para o outro. Os clarões ainda iluminavam o céu de vez em quando, mas, para eles, esse era um assunto que não importava no momento.

Noite Sangrenta #6 - Invadindo o Pesadelo - 786 d.Q., Tycon

As nuvens que cobriam as estrelas não eram as únicas marcas da chuva que havia passado. O telhado do velho casarão estava molhado e escorregadio. A idade das telhas também piorava a situação. Mas Lyrot já tinha pisado em solos menos estáveis na sua vida.

A mansão do Lorde Greer era bem grande e provavelmente tão velha quanto a própria cidade. O guardião já tinha entrado nela algumas vezes para realizar uma missão ou mesmo por convite do dono da casa, mas nunca às escondidas. Lyrot não se lembrava de ter ouvido falar de nenhum caso de invasão ao casarão, o que não lhe agradava muito.

O encontro no bosque não lhe saía da cabeça. Agora ele estava parado no telhado de uma velha mansão, prestes a entrar pela janela. Lyrot por nenhum instante deixou de pensar que aquilo era uma armadilha, mas ele confiava em suas habilidades. Se haviam preparado algo para ele, era melhor que fosse realmente bom.

O guardião não tinha muito tempo para perder. Enrolou sua mão na capa e quebrou a janela, pulando no chão do sótão em seguida. Assim que colocou os pés na madeira podre, as tábuas se  partiram e o guerreiro caiu no andar de baixo, cortando a coxa em um castiçal que estava pendurado  na parede.

Assustado, Lyrot rolou para trás de um sofá. Com certeza tinham ouvido todo aquele barulho. E não iria demorar para que fossem verificar o que tinha acontecido. O corte que recebera não era profundo e não iria causar nenhum problema se o lavasse mais tarde, por isso se concentrou em sair dali.

O silêncio dentro da mansão era perturbador. A noite ali dentro parecia mais escura e solitária. Algo ali parecia diferente do que se lembrava. Os objetos e móveis estavam arrumados à perfeição, mas parecia que ninguém sequer olhava para todo aquele luxo há anos. Os passos de Lyrot lhe soavam constrangedoramente altos. A única coisa que se ouvia era o ranger do assoalho sob seus pés.

Mas mesmo assim, o guardião não podia deixar de pensar que havia algo ali que o observava. Durante todos esses anos, Lyrot tinha aprendido a confiar em seus instintos e quase sempre estava certo. E agora esse sentimento era muito forte. Era como se pudesse quase tocar o perigo que estava ali. Talvez fosse a falta de luz, ou o cansaço da noite, mas Lyrot sentia que tinha acabado de cair na armadilha.

O Herdeiro#4 - Combate – 764 d.Q., Zacrest

"O filho perfeito do mal, 
Sobre a Terra irá reinar. 
E uma escuridão sem igual, 
Fará o mundo se curvar. 
Novamente as trevas reinarão, 
Enquanto durar a noite. 
Num reino de Sombra e Solidão, 
Onde a vida será um açoite." 

As mãos negras de Azzwiters estavam cobertas de sangue. Suas roupas pesavam de tão molhadas pelo líquido vermelho. Mas o Filho-do-Mal já estava onde queria. Só faltava mais uma porta para que chegasse à Coroa. Ele já podia senti-la ali, ao seu alcance. A energia mágica que emanava do salão era enorme. Ali dentro estava algo grande e perigoso, mas que lhe atraía cada vez mais.

Quando estava quase abrindo a porta, uma flecha atingiu as costas do drow. Azzwiters calmamente se virou, aparentemente sem se preocupar com o ferimento e viu o que parecia algum tipo de oficial élfico.

Assim que Azz percebeu o inimigo, este já estava a dois metros do drow e com a espada em mãos. Mas Azzwiters era mais rápido. Desde que nasceu vinha sendo trinado para o combate, e velocidade era uma de várias habilidades adquiridas. O Filho-do-Mal usou uma das adagas que carregava consigo para prender o pé do oficial no chão.

Os gritos de dor do elfo faziam o drow estremecer de prazer. A força com que a lâmina estava presa à rocha era enorme, impedindo que a vítima se movesse. Azzwiters, com um movimento rápido e preciso, retirou a espada das mãos de seu adversário. A lâmina élfica era bem trabalhada e possuía uma série de inscrições na língua de seu dono. Havia uma aura mágica emanado da arma e isso fez com que Azz se interessasse. A partir de agora a espada era sua.

E o primeiro teste que faria com a arma seria no seu antigo dono. Nada que fosse rápido demais, mas que com certeza mataria a vítima era o ideal. O Filho-do-Mal optou por algo que não fazia há um bom tempo: cortar as pernas e mãos da vítima e abandoná-la viva.

Agora que o serviço estava feito, Azzwiters podia se concentrar na Coroa novamente. A alma do Maldito logo estaria em suas mãos.

A Queda dos Deuses Antigos #1 – Fogos no Céu – Ano da Queda, Yyrm


Não fazia muito tempo que Loregan Vien’ac II tinha saído de casa. Sua vida de aventuras estava apenas começando e até agora não tinha passado por nenhum perigo real, excluindo-se um taverneiro enfurecido, a quem havia “acidentalmente” esquecido de pagar uns trocados.

Sua espada velha que ganhara antes de partir e as roupas surradas eram as únicas coisas que levara de casa. O pai era o único que possuía o mesmo sangue nas veias que Loregan. Sir Loregan era um nobre cavaleiro a serviço do Regente de Yyrm, mas acabou se endividando até perder tudo o que conseguira. Tudo o que restara de sua antiga fortuna foi o que usou para sustentar-se junto ao filho e comprar-lhe uma espada usada.

Os cabelos castanhos de Loregan balançavam ao vento calmo da tarde de outono. Os últimos três dias tinham se resumido a fugas de estalagens e perseguições a coelhos velhos. O meio-elfo pensava consigo mesmo que de todas as histórias que ouvira do pai sobre suas aventuras, nenhuma chegava a ter ao menos um dia sem perigos e batalhas.

Os sons que a barriga do jovem aventureiro emitia pareciam os de um dragão e não fazia nem meia hora que havia comido um peixe. A cidade estava a menos de 500 metros dali, mas Loregan estava cansado demais para correr de outro comerciante.
Uma jovem e bela elfa passava na estrada na base da colina em direção à cidade. Loregan ainda era jovem e fazia tempo que não se divertia com nenhuma garota. Já tinha pegado sua mochila e se levantava para conversar com a moça quando um forte clarão iluminou toda a região.

Se recuperando do susto inicial, o meio-elfo olhou rapidamente ao redor em busca da origem de tal luz. Ainda tentando encontrar a fonte, um segundo clarão o cegou por alguns instantes. Sem ver nada, Loregan foi puxado por algo ou alguém colina abaixo.
Pouco depois estava encostado no tronco de uma alta castanheira ao lado da elfa que vira a pouco na estrada. Ela parecia atenta e nervosa, e ficava olhando para os lados com os olhos se movendo rapidamente.

-O que está acontecendo? – perguntou Loregan enquanto mais um clarão iluminava o céu.

A jovem apenas fez um sinal para que se calasse e continuou observando as estranhas luzes que, agora se percebia, vinham do céu.