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Boa leitura!

Noite Sangrenta #23 – Visita Inesperada – 786 d.Q., Tycon


Já era meio da tarde quando Lyrot finalmente se entrou casa-na-árvore. Cansado dos últimos dias, o guerreiro ainda teria muito que fazer antes que pudesse deitar-se em uma cama. O terror que passara recentemente na mansão Greer, no pântano e no Mausoléu de Birk o atormentaria por várias noites tumultuadas. Isso quando ele finalmente pudesse descansar.

E esse momento não chegaria por um bom tempo. Agora que possuía o livro dos cultistas, ele tinha muito que pesquisar. Apesar de conhecer razoavelmente bem a linguagem antiga usada no tomo, Lyrot demoraria algum tempo para que pudesse compreender todo o seu conteúdo. E se quisesse encontrar a sua irmã, deveria fazer isso o mais cedo possível.

As últimas palavras de Bismor ainda ecoavam em sua mente quando o guerreiro colocou os pés no assoalho da casa. Algo grande estava para acontecer, e Lyrot tinha a impressão de que, o que quer que fosse, estava profundamente relacionado com Xt’Sarath. Ainda compenetrado em seus pensamentos, o ex-guardião sentou-se na velha cama sem perceber quem estava no cômodo esperando por ele.

-Vejo que está cansado, Lyrot – A voz parecia vinda das profundezas de um lago frio.

Com um susto, Lyrot se vira, puxando seu recém adquirido machado da cintura. Não demorou muito para que reconhecesse a fada que o ajudara a encontrar o Mausoléu.

-É normal depois de lutar com uma horda de zumbis mais um grupo de cultistas satânicos – A resposta seca de Lyrot fez com que uma cara de reprovação surgisse no rosto da ninfa.

-Que bom que você conseguiu eliminar a ameaça que corrompia a floresta. Mas acho que você já entendeu que o grupo do Mausoléu era apenas um ramo do carvalho. E quando descobrir o que está escrito naquele livro saberá o que fazer.

-Como sabe do livro? Andou mexendo nas minhas coisas?

-Na verdade eu já esperava que você o trouxesse. Digamos que foi “intuição”.

Lyrot não gostava nem um pouco de todo aquele ar misterioso da fada. Depois de ter descoberto que até mesmo um dos Guardiões estava a serviço do Príncipe-Demônio, aquela estranha criatura sobrenatural era uma grande suspeita. Aparentemente lendo seus pensamentos, a ninfa começou a falar:

-Não acredita que eu esteja tentando te ajudar? – O som suave da voz da criatura refrescava a alma de Lyrot como um banho de rio – Talvez ajude se eu te disser que com esse livro você poderá chegar até sua querida Kate...

A Queda dos Deuses Antigos #6 – Pedido – Ano da Queda, Yyrm


-Deixe-me ver se entendi bem, – a elfa parecia não acreditar muito naquela história – você, um Deus, está pedindo ajuda a nós, um trio que acabou de se conhecer, para que encontremos um meio de impedir que esses Novos Deuses tomem o poder?

Loregan não compreendia o que tanto intrigava a jovem. O Cavaleiro Radiante estava lhes pedindo auxílio e não deveriam recusar.

-Venathia, qual o problema com isso? É o mínimo que podemos fazer pelos nossos Deuses depois de tudo que nos deram!

O fervor do guerreiro pareceu mexer com Venathia. A idéia de que pudesse fazer algo importante pelos deuses que venerava era revigorante. Sir Kelmer, com sua voz calma interrompeu os pensamentos da garota.

-Partirei agora em busca de mais pessoas dispostas a ajudar. Que sua viagem seja cheia de glória.

Fazendo seu brilhante cavalo andar, quase sem tocar o solo, Sir Kelmer segue em direção à estrada, parando em frente à Loregan. Olhando por um instante para o guerreiro, o Deus da cavalaria declara, antes de retomar a marcha:

-Sua alma é cheia de coragem, jovem meio-elfo, e isso lhe trará um grande futuro. Saiba que um pedaço de mim sempre seguirá com você.

Após alguns instantes observando o cavaleiro afastar-se em direção à cidade, Loregan e Venathia olham um para o outro, com as mesmas perguntas passando pelas mentes dos dois aventureiros.

Aquela estranha conversa matinal parecia algo bastante irreal. Os dois se perguntavam silenciosamente se haveria realmente algo que pudessem fazer por Sir Kelmer e todos os outros Deuses.

De repente Loregan se levanta, lembrando-se de algo que, já há algum tempo, não pronunciava palavra alguma nem estava onde deveria estar. O jovem ladrãozinho que haviam capturado.

Noite Sangrenta #22 – Nova Caça – 786 d.Q., Tycon

A porta dupla do salão se abriu com um estrondo. Lyrot entrou pisando forte, a cabeça cheia de hipóteses e teorias. A imagem do terrível demônio ainda preenchia sua mente, terrível e ameaçador. O livro estava guardado em sua casa para que fosse analisado depois, mas era como se estivesse aberto na sua frente, mostrando todas aquelas imagens cheias de sangue e dor.

O guardião percorreu toda a extensão do salão até se aproximar do trono do Conde. Sem maiores cerimônias, Lyrot soltou a cabeça de Bismor Morte-Negra aos pés do seu senhor.

-A missão foi terminada – Disse o guardião, sem tirar os olhos do Conde – Bismor liderava um grupo de cultistas que causavam as perturbações de que o senhor falou. Todos foram eliminados e em breve tudo voltará ao normal.

Sem se incomodar com o crânio manchando seu tapete, o Conde de Tycon fala com um tom de orgulho:

-É por isso que você é um dos meus favoritos, Lyrot. Quando te peço para fazer alguma coisa você faz. Seu poder me surpreende cada dia mais.

-Então por que não me ajuda a encontrar minha irmã como prometeu? A cada dia que passa tudo o que eu recebo são mais e mais mortes para carregar em minhas costas enquanto Kate continua perdida.

-Não diga isso, Lyrot. Você sabe tanto quanto eu que eu tenho tentado o máximo possível, mas meus esforços parecem não ser o suficiente...

O guardião sabia o quanto aquilo era mentira. Cada palavra do nobre ameaçava a tênue barreira que segurava a raiva de Lyrot.

-Talvez nós estejamos errados – Foi a frase menos ofensiva que conseguiu dizer. Para ele não faria mais diferença o que o Conde pensava. O desejo de Lyrot era nunca mais ver aquele homem em sua frente. Havia decidido que se quisesse encontrar Kate, teria que fazer isso com suas próprias mãos – Vou me retirar agora.

Sem esperar uma resposta do Conde, Lyrot virou-se e saiu a passos largos do salão. Agora, ele voltaria para casa. E, sem o Conde em seu caminho, ele só tinha que se concentrar em encontrar sua irmã. E a única pista que tinha no momento era o livro.

Ele não tinha aliados em quem confiar, não tinha senhores a quem servir, nem tropas a comandar. Tudo o que estava ao seu alcance era sua força de vontade e seu poder. E seria o suficiente para causar um bom estrago.

A caça começava agora.

O Herdeiro#9 – Preparando-se Para o Confronto – 765 d.Q., Zacrest


A enorme porta de ferro se abriu com um estrondo. Sem olhar para os lados, Azzwiters entrou pelo portal, dirigindo-se à sacerdotisa líder.

-Os elfos estão se preparando para um ataque, senhora. Suas forças estão organizadas e uma tropa se dirige imediatamente à nossa cidade.

-Azzwiters! – exclamou a drow com surpresa – Achei que havia morrido na batalha. Nós perdemos comunicação com toda a tropa.

A sacerdotisa sabia que o drow-demônio tinha algo a ver com aquela história, mas não podia fazer nada.

-Nosso grupo foi massacrado na batalha – disse Azz – A cidade élfica foi protegida magicamente, o que nos impediu de fugir. Por sorte consegui me esconder enquanto observava o inimigo.

A sacerdotisa poderia acreditar em Azzwiters ou não, mas tinha acabado de receber a notícia de que tropas élficas marchavam nas redondezas da cidade. Isso exigiria uma reação imediata, e o Filho-do-Mal deveria esperar por um julgamento mais adequado.

O drow agora havia sido liberado para se preparar para a batalha. Com sua nova espada, Azz se dirigiu à muralha, de onde poderia ver a batalha de camarote e, cedo ou tarde, se envolveria em combate com os invasores élficos.

Podia lhe parecer estranho agora ele ter passado tanto tempo em meio aos elfos, mas segundo a velha profetisa, isso seria necessário para que o trono fosse seu. Azzwiters tinha se acostumado a confiar naquela velha senhora.

Agora, finalmente, Azz poderia eliminar aqueles malditos elfos da superfície que durante meses o incomodaram. Sua sede de morte seria satisfeita em apenas algumas horas.

O som de uma trombeta ecoou nos corredores rochosos da caverna. Um som forte e claro, usado pelos drows para simbolizar perigo.

O inimigo estava chegando.

Noite Sangrenta #21 – Revelação – 786 d.Q., Tycon


O cheiro de morte ainda pairava no ar dentro do Mausoléu de Birk, tanto dos velhos corpos apodrecendo nos sarcófagos quanto dos novos caídos em poças de sangue. A batalha com o lobisomem parecia ter sido intensa e sanguinolenta. E Lyrot agradecia por isso.

No centro da sala de pedra, havia o que se podia chamar de um altar improvisado. Um manto negro e surrado repousava sobre o caixão principal, provavelmente o do próprio Birk. Sobre ele podiam-se ver instrumentos que pareciam saídos do pesadelo de um torturador psicopata. Vasilhas com substâncias pastosas e avermelhadas completavam a cena juntamente com um velho livro aberto no meio.

Lyrot imediatamente foi em direção ao tomo, que possuía uma capa velha de couro que podia muito bem ter sido retirada de um volume de antes da Queda. Suas palavras, apesar de parecerem estranhas e alienígenas à maioria dos seres humanos, eram familiares ao guardião. Seus anos a serviço do Conde requisitaram mais do que apenas músculos para que chegasse vivo até aqui.

Folheando o tomo, Lyrot via figuras de símbolos ritualísticos e ilustrações de criaturas tão assustadoras que seria perigoso até mesmo descrevê-las. Aos poucos, o guardião foi compreendendo o que desejavam os cultistas. Todos aqueles rituais satânicos, a corrupção da floresta, uma horda de mortos-vivos, levavam-no a crer que talvez realmente não pudesse mudar o que viria.

Uma organização muito maior do que aquele pequeno grupo que enfrentava ali estava envolvida no assunto. As reais proporções do problema começavam a tornar-se claras a cada folha do livro que Lyrot virava. Citações de locais profanos, templos amaldiçoados, guerras criadas pelos cultistas. Cada vez mais, parecia-lhe que estava lutando uma batalha perdida.

Mas a lembrança de Kate o mantinha no caminho. Sua irmã seria resgatada, nem que tivesse que desafiar o céu e o inferno no processo. E provavelmente pelo menos o último teria que enfrentar.

Uma das últimas páginas do livro, tão amarelada e velha como as demais, chamou a atenção especialmente do guerreiro. Não que aparentasse ter sido mais manuseada, ou estivesse suja de sangue. A questão era a figura que aparecia no topo da página.

A figura do Príncipe-Demônio mais lendário de que já ouvira falar: Xt’Sarath, O Vermelho.