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Boa leitura!

Noite Sangrenta #9 – ...volta - 786 d.Q., Tycon

No mesmo instante, Lyrot se esqueceu de toda a dor que sofria naquele momento. Todo o sofrimento que os inúmeros ferimentos em seu corpo podiam lhe causar não chegava nem perto do que estava prestes a acontecer. Aquilo que ele mais temia, que ele mais odiava em sua vida, estava mais uma vez de volta. Para o guardião, cortes e ossos quebrados não eram nada comparados ao terror que estava prestes a começar. Lorde Greer não importava mais. O vampiro não era mais o seu maior problema. Mas não havia nada a ser feito.

Primeiro, todo o corpo do guerreiro estremeceu violentamente. A luz pálida da lua apenas deixava a cena mais assustadora enquanto os gritos de dor e terror de Lyrot ecoavam no pátio. Aos poucos, retomando o controle dos movimentos, o guardião apoiou-se com as mãos na parede, mas logo caiu. O som produzido pelo homem agonizante era capaz de gelar o mais corajoso coração.

Quando os movimentos finalmente cessaram, já não era mais Lyrot caído naquele chão. Uma pelagem negra e grossa crescera por todo o seu corpo, deixando-o com uma aparência animalesca. Seu rosto estava muito mais longo, assemelhando-se a um cachorro. As garras e presas tinham agora um tamanho cinco vezes maior. Os olhos negros como a noite da criatura inspiravam medo e terror.

-Ora, ora. Nunca pensei que encontraria outro desses por aqui, Gilbert. Às vezes me pergunto se aquela história de lobisomens e vampiros serem inimigos naturais não é verdade mesmo. Quem sabe... – A fala de Lorde Greer foi interrompida quando o homem-lobo saltou em direção à janela com uma velocidade assustadora. As garras de Lyrot perfuravam a carne gélida do vampiro como manteiga.

O serviçal foi jogado em direção à parede no mesmo instante em que tentou se aproximar da criatura. Com uma força impossível de ser superada por um humano normal, o lobisomem ergueu o Lorde com uma das mãos enquanto atacava a barriga do vampiro com a outra. 

Com dificuldades, Greer conseguiu concentrar-se e, deixando fumaça em seu lugar, reapareceu atrás de Lyrot. Mas os instintos e sentidos da fera eram melhores do que o conveniente para o vampiro, o que fez com que o Lorde tivesse seu braço arrancado com uma mordida. Novamente desaparecendo, Lorde Greer agora olhava assustado para a besta que se movia rapidamente na sua sala, imaginando o que fazia aquele adversário tão mais forte que os demais. Provavelmente não conseguiria derrotá-lo, e ficar escondido atrás da estante não iria funcionar para sempre.

Na verdade, já não funcionava mais.

O Herdeiro#5 – A Coroa – 764 d.Q., Zacrest

"O filho perfeito do mal,

Sobre a Terra irá reinar.

E uma escuridão sem igual,

Fará o mundo se curvar.

Novamente as trevas reinarão,

Enquanto durar a noite.

Num reino de Sombra e Solidão,

Onde a vida será um açoite." 


Azzwiters já podia sentir o poder da Coroa em suas mãos. Não importava o quanto a porta estivesse lacrada, o drow entraria ali de qualquer forma. Não só o destino dos elfos negros estava em jogo ali. Todo o futuro do Cosmo estava sendo decidido nesse ataque. 

Com sua simples força de vontade, o Filho-do-Mal rompeu todos os selos mágicos, trancas e armadilhas que protegiam a passagem. Para Azz, aquilo era tão fácil quanto respirar. A porta lentamente girou sobre seu eixo para revelar o interior do enorme salão. Inteiramente contido em uma árvore típica de cidades élficas da região, o local parecia apresentar uma luminosidade natural que destacava o pedestal no centro da sala circular.

Com uma enorme força, a Coroa atraía o drow para perto de si. O mal que havia dentro daquele objeto clamava por liberdade e vingança àqueles que o aprisionaram ali em épocas passadas. Sua fina haste de metal negro continha uma enorme quantidade de espinhos que se erguiam ameaçadoramente. A energia que pulsava do artefato dava a impressão de que a alma do Maldito ainda vivia em seu interior, o que, de certa forma, não deixava de ser verdade.

Sem hesitar, Azzwiters se dirigiu ao centro do salão. Sua mão se erguia com vontade em direção à Coroa. Mas algo fez com que o elfo negro parasse no meio de sua trajetória. Um sorriso de satisfação apareceu no rosto do Filho-do-Mal. Ele ainda derramaria muito sangue naquele dia.


Noite Sangrenta #8 – Tudo que vai...- 786 d.Q., Tycon


Apesar de toda sua experiência em batalhas, Lyrot sentia cada vez mais que não conseguiria vencer como estava. Aparentemente, o tal “veneno” iria lhe causar sérios problemas. A visão do guerreiro estava turva e a lua estava apenas parcialmente visível no céu. Agora, mais do que antes, sombras pareciam mover-se ao redor de Lyrot, ao mesmo tempo em que sons horripilantes tiravam sua concentração. Nessa luta, o guardião só poderia confiar em seus instintos.

Antes que pudesse se focar no ambiente ao seu redor, uma forte pancada na barriga o fez recurvar-se de dor. Lyrot conseguiu ver que Gilbert havia lhe dado um soco, espantando-se com a enorme velocidade do lacaio.

-Não se esqueça, Gilbert: o sangue dele é mortal para nós. Ingerir todo aquele veneno nos faria mal. – a voz de Lorde Greer parecia vinda do fundo de um túmulo enquanto pronunciava essas palavras.

Apesar de não conseguir pensar direito devido aos ataques do serviçal e ao veneno, Lyrot agora entendia grande parte do que estava acontecendo. A referência ao seu sangue fez com que a clássica imagem do Vampiro na mansão viesse à sua cabeça, o que certamente não era bom.

Depois de alguns golpes, Lyrot já não tinha a espada em suas mãos, estando esta caída no lado da sala oposto à janela. Quase nenhum humano poderia ganhar, se seus palpites estivessem corretos, de um vampiro com as mãos nuas. Cada vez que o guardião tentava golpear o lacaio, era acertado e empurrado para traz.

O sangue escorria pela boca de Lyrot e seu corpo quase não suportava mais a dor quando um chute de Gilbert o empurrou contra a janela, fazendo-o cair junto com os pedaços da vidraça. Os cacos de vidro o cortavam e penetravam na sua carne. O guardião já não podia mover seus músculos. A única imagem que Lyrot tinha na cabeça era o reflexo da lua-cheia no sangue.

Noite Sangrenta #7 – Na Ratoeira - 786 d.Q., Tycon


Lyrot já não agüentava mais ficar rodando dentro daquele casarão silencioso sem encontrar sequer uma barata ou rato. Quanto mais ficava naquele lugar mais sentia que algo o vigiava. O guerreiro já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha se virado ao pensar ter ouvido algum barulho.

O guardião agora andava com a espada na mão e estava pronto para qualquer ataque surpresa. Mas Lyrot suspeitava que não seria tão fácil. Tendo passado por várias situações piores que essa, o guerreiro sabia que tinha que se manter calmo. Mas a cada instante era mais fácil perder a razão. Aos poucos, sons distantes e indistinguíveis começavam a aparecer.

Embora fosse impossível determinar a natureza do barulho, cada pulso da “voz” fazia gelar o coração de Lyrot. Não demorou muito para que vultos ligeiros começassem a perturbar o homem. O medo já não lhe deixava raciocinar como deveria.

Repentinamente, uma força derrubou o guerreiro no chão, como se fosse um moleque cansado. Para Lyrot, aquela foi a última gota. Correndo como um louco, o guardião não pensava mais em se esconder. Não pensava em mais nada. Apenas sua sobrevivência estava em jogo agora.

O invasor só voltou à razão quando parou em frente a uma janela. A luz pálida da lua agora chegava mansamente à mansão por uma fresta nas nuvens. Vendo a saída, Lyrot voltou ao seu estado normal.

-Ora, ora. Acho que pegamos um rato hoje, Mestre.

A voz arranhada vinha das costas do guardião e fez com que todos os seus pelos se arrepiassem. Virando-se rapidamente, Lyrot se agacha pronto para esquivar-se de um ataque, mas percebe que as duas pessoas que o observavam estavam do outro lado do salão. O menor deles era curvo e feio, com os braços longos e vestia um traje simples e sujo. Ele se escondia atrás do outro, como um cachorro assustado, sendo este uma figura elegante e esbelta, que emanava por si só uma aura de atração. Os dois, como Lyrot já sabia, eram Lorde Greer e um de seus serviçais.

-E um dos grandes, Gilbert. Sorte que ele já foi envenenado. – disse o senhor da mansão.

Não demorou muito para que Lyrot percebesse que o último comentário não tinha um significado muito bom para ele. De mesmo modo, isso lhe explicou o porquê de todas aquelas sensações amedrontadoras. Provavelmente o tal “veneno” estava lhe causando alucinações. Mas seria só isso? Ele não esperaria pra ver.

Antes que a situação piorasse, Lyrot virou-se rapidamente para a janela com intenção de pular. Assim teria feito se uma tonteira repentina não o tivesse feito cambalear. Com a visão e o equilíbrio prejudicados, o guardião não viu opção a não ser ficar e lutar.

A Queda dos Deuses Antigos #2 – Na Cabana – Ano da Queda, Yyrm


As luzes continuaram por um bom tempo. Loregan nunca tinha visto algo do tipo em toda a sua vida, nem mesmo nas histórias de seu pai. Pensando nisso, o jovem aventureiro começa a se preocupar com o velho cavaleiro. Mesmo tendo sido treinado para combate na sua juventude, Sir Loregan já estava idoso demais para agüentar uma batalha prolongada.

Enquanto estava perdido em seus pensamentos, a elfa entra na cabana carregando alguns coelhos no braço. Fazia apenas alguns minutos que os dois tinham decidido procurar algum lugar para passarem a noite. Não tinha levado muito tempo para que encontrassem o velho casebre na beira da estrada. Apesar de o lugar parecer ter sido abandonado há pouco tempo, estava relativamente limpo e arrumado.

-Uau! Você é realmente boa nisso! – disse Loregan, encantado com a velocidade em que a garota conseguira a caça.

-Eu sou uma caçadora. E o nome é Venathia. – respondeu a elfa corando um pouco com o elogio.

-E o meu é Loregan.

Após um instante de silêncio, os dois começaram a preparar a refeição, sem dizer nenhuma palavra um para o outro. Os clarões ainda iluminavam o céu de vez em quando, mas, para eles, esse era um assunto que não importava no momento.